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Ciência e arte em um órgão de tubos

Na pequena cidade de São Manuel, no interior de São Paulo, há um cemitério cuja entrada é formada em sua maior parte de túmulos mais antigos, vários deles pertencentes à família Barros, tradicionais cafeicultores da região. Talvez o mais ilustre membro da estirpe tenha sido Adhemar de Barros, duas vezes governador de São Paulo nas décadas de 1940 e 1960. Mas as vielas do cemitério dão destaque para outro Barros, o João de Barros. O túmulo deste é uma espécie de monumento com um obelisco em cuja ponta, no alto, encontra-se o busto do homenageado. Por um capricho da natureza, desses que parecem ser feitos por um plano engendrado ou pelo puro acaso, um pássaro joão-de-barro construiu a sua casa em cima do busto do falecido João de Barros. Talvez o pomposo túmulo tenha sido notado apenas uma vez por ocasião de sua inauguração. Tirante os familiares, ninguém sairia de sua casa se alguém lhe convidasse para ver o túmulo do João de Barros. “’tra hora eu vô”, diriam com a boca semicerrada. Mas ninguém precisava ser convidado para ver a casa do quase homônimo. Desde a sua construção até muito depois do seu término no lugar onde se encontrava, a casa, e não o túmulo, dava um ar gracioso na tranquila vizinhança. Enquanto ela durou, foi uma atração. Aos vivos, claro.

Não se sabe quando a casa se desfez ou quando o joão-de-barro, a ave, faleceu. Já se vão décadas desde então, mas Dom Paulo Sérgio Pamzan, pároco do mosteiro de São Bento em Vinhedo, não se esquece daquele episódio da sua infância em São Manuel. Com um breve sorriso no canto da boca, é como se constatasse a presença conjunta de morte e vida em um único lugar e representada de forma irônica: o laborioso joão-de-barro em cima do busto do falecido João de Barros, para quem já cessaram os labores desta vida.

Ah, os pássaros, quantas coisas nos mostram ou nos ensinam! Difícil dizer se existe algo mais ancestral ou primitivo do que um pássaro que, atrás de insetos para comer, cava com o seu bico pequenos furos em um galho oco como um bambu ou junco. Bastou apenas uma pessoa, sabe-se Deus quando e onde, interessada em ouvir o vento soprar por entre aqueles furos e produzir som. Bastou apenas uma pessoa, sabe-se Deus quando e onde, reproduzir o que vira fazendo ela própria furos em um tubo de madeira e usando seu próprio hálito como o vento. Pronto. Iniciou-se assim, quase como que por dádiva divina, a construção dos mais diversos instrumentos musicais de sopro. E entre eles o órgão de tubos. Um mecanismo ao mesmo tempo complexo na sua construção e de extrema simplicidade em seu funcionamento. Para quem ouve um órgão de tubos, as sensações são inúmeras: espanto, respeito, impossível não se maravilhar. De um momento para outro, aquele instrumento musical gigantesco reproduz uma simples flauta doce em toda a sua simplicidade e que nada mais é do que ar através de um tubo.

Salvo por algum interesse específico, dificilmente alguém sairia da sua casa para ver um órgão de tubos, assim, estático como uma peça de museu. “Noutra hora eu vou”, alguém poderia dizer. Mas Dom Paulo estava em sua cela, como são chamados os aposentos dentro do convento. De repente soou no ar um som de flauta doce. Pensou: “Quem poderia estar tocando flauta agora pela manhã?”. Saiu em direção do lugar de onde vinha o som e não era outra coisa senão Georg, o organeiro alemão, fazendo testes durante a montagem do órgão. Ambos ficaram ali um pouco de tempo ouvindo e não puderam conter a emoção. Acabaram ambos chorando juntos.

A ciência presente nesse instrumento musical é simples e se considerarmos os fenômenos físicos observados apenas na produção do som, eles já são bem conhecidos. Desta forma, quando você quer ver a ciência e a arte em um órgão de tubos, você vai penetrar em dois territórios extremamente diversos: um território da ciência, árido, do qual, mesmo entre as pessoas envolvidas na fabricação do instrumento, poucos se interessam em falar; e um território artístico, cheio de tanta vida e entusiasmo que chega a extrapolar o limite do humano e a alcançar as esferas espirituais, dado que a grande maioria dos órgãos de tubos está instalada em igrejas católicas e protestantes.

“Estudei órgão e você sabe que todo organista sonha com um órgão de tubos, mas em vista das condições financeiras, achávamos impossível. Lembro-me bem que foi no ano de 2001 que comecei a receber os primeiros incentivos. Uma professora americana de órgão foi uma das primeiras a me incentivar, chegando a sugerir, inclusive, a aquisição de um órgão usado”, conta Dom Paulo.

Naturalmente ninguém sonha em ter um órgão de tubos em sua própria casa, por isso são exclusivamente comunitários, instalados em igrejas ou teatros. “Era como um sonho impossível”, diz Dom Paulo, sentado na banqueta em frente ao órgão. Após iniciativa de três benfeitores e muitas quermesses, apresentações do coral, rifas e bazares, o órgão de Vinhedo passou a se tornar viável. O envolvimento da comunidade foi tamanho que até hoje ele é conhecido como “o nosso órgão” pelas pessoas que frequentam a igreja onde ele está instalado.

O contrato para a construção do instrumento no mosteiro aconteceu em 2009, sendo que os trabalhos só terminaram em 2011. Foi um tempo necessário para a construção de tantas peças e quem se incumbiu do trabalho foi o berlinense Georg Jann, radicado em Blumenau, no sul do país.

“Há diversos fabricantes pelo mundo, empresas americanas e japonesas, mas optamos em fazer o contato com o senhor Georg e ele aceitou a empreitada. O contrato foi assinado em meados de 2009 e o órgão chegou em 31 de julho de 2011. A montagem no local levou mais ou menos uns 15 dias. Depois houve um trabalho de afinação e entonação. O órgão foi inaugurado em 23 de setembro de 2011. Acredite, um mês antes da sua montagem definitiva, resolvemos mudar o local de um lado para o outro da igreja. Derrubamos uma parede e ele se encaixou no lugar. Está perfeito não só na localização como também na estética e combinação com as cores dominantes dentro da igreja”, explica Dom Paulo.

Durante a construção, poucas partes mecânicas vieram da Europa (como o motor para o compressor de ar, que é muito silencioso) e apenas um registro, chamado Cromorne. Todo o restante foi fabricado na pequena cidade de Rodeio, próxima a Blumenau. Há nessa cidade um convento franciscano e atrás do convento havia uma antiga estrebaria, que foi transformada em oficina. Ali foram feitas todas as peças e fundidos todos os tubos. O órgão foi montado, testado, desmontado e encaixotadas as peças para o seu transporte para Vinhedo. A maior parte da madeira usada na construção é de cedro rosa, mas há de pinho também. As preocupações com o tipo de madeira utilizada envolvem a acústica, a resistência a cupins e a estética também. São 904 tubos que variam, em suas dimensões, de 2,5 centímetros de comprimento até 3,5 metros de altura. O menor diâmetro de um tubo é 0,5 centímetroe o maior trata-se na verdade de um “tubo” quadrado de madeira para os sons graves da pedaleira medindo 35 centímetros de lado.

Ao longo do tempo, os órgãos de tubo se desenvolveram até mais ou menos o ano de 1500, quando se chegou a um estágio que de lá para cá pouca coisa mudou. Os alemães dominaram a fabricação desses órgãos na Europa por cerca de 300 anos. Tilmann Späth é um desses alemães que alimentam a tradição. Fabricante de órgãos de tubos em Freiburg, na Alemanha, e pertencente a uma família de organeiros que atravessa gerações desde aproximadamente 1894, Tilmann tem orgulho do trabalho e gosta de dizer que seu bisavô construiu um órgão de tubos no Brasil, especificamente no Rio de Janeiro. Segundo Tilmann Späth, as pessoas que trabalham no projeto e construção desses instrumentos aprendem o ofício com os próprios fabricantes e depois se especializam em uma ou outra parte da confecção das peças, seja na arte moveleira ou no trabalho com metais. “Existem hoje na Alemanha por volta de 170 empresas fabricantes de órgãos de tubos envolvendo uma quantidade aproximada de 2.500 pessoas na fabricação desses instrumentos. Em cerca de três anos e meio, pode-se formar uma pessoa para iniciar nesse trabalho. No entanto, exige-se um tempo maior para se ter um profissional, pois ele necessitará de uma formação em fabricação de móveis, trabalho com metais e mecânica fina, desenho técnico, eletricidade e eletrônica além de algum conhecimento musical, embora não haja necessidade de ser um músico para se fabricar órgãos. Há, no entanto, um profissional fabricante de órgãos que se especializa na afinação do instrumento. Normalmente esse profissional tem um conhecimento maior de música e toca o instrumento. Embora essas empresas se encontrem em plena atividade, dificilmente será possível construir órgãos de tubos em série. Cada local, cada igreja, cada cliente, acaba determinando a construção de um instrumento único. Quase que se pode afirmar que não existem dois iguais, embora isso não seja impossível”, disse, por email, o afinador alemão de órgãos de tubos Reiner Janke.

Descrever um órgão de tubos não é difícil. O de Vinhedo, por exemplo, tem três teclados. Normalmente compõe-se de um console onde se localizam os teclados, registros para os diferentes sons e pedaleiras para os sons mais graves e de acompanhamento.

Além do console, há os tubos que podem ser de diferentes metais – cobre e liga de estanho com chumbo – e outros de madeira e, finalmente, o compressor que envia o ar para os tubos. Os teclados definem as válvulas que abrem e fecham eletricamente, enviando o ar para o tubo que produzirá um determinado som.

Discriminar os aspectos científicos em um órgão de tubos também não é difícil. É na produção do som que se encontra o aspecto científico mais evidente do instrumento. Não deixa de ser também o mais interessante quando se sabe que Daniel Bernoulli escreveu sua obra Hidrodinâmica em 1738, ou seja, mais de 200 anos depois da finalização dos elementos principais do órgão. Daniel Bernoulli foi um matemático holandês nascido em 1700 e é particularmente lembrado por suas aplicações da matemática à mecânica. O Efeito Bernoulli, como é conhecido, é um princípio da física que encontra no órgão de tubos a sua manifestação clássica. Aliás, não só no órgão de tubos como também em todo e qualquer instrumento de sopro, pois trata da perturbação do ar que se encontra dentro de um tubo, fazendo-o vibrar e produzir som. Há inclusive quem se refira à produção do som em um tubo como “produção de um Bernoulli”. Bernoulli elaborou uma equação que relaciona a velocidade do ar em um tubo com a sua pressão. Ou seja, a pressão do ar que entra pelo tubo depende da sua velocidade e da área que é determinada pelo diâmetro do tubo. Assim, se reduzimos o diâmetro do tubo para que aumente a velocidade do ar que entra por ele, a pressão desse mesmo ar diminui. Outro fenômeno físico observado na produção do som nos tubos é o chamado Vórtice de Kármán. Um vórtice é um redemoinho. São padrões produzidos pelo ar quando encontra um obstáculo sob certas condições. Compare-se ao ar cortado pela antena de um carro em uma dada velocidade e o som que se produz. No caso do ar que entra pelo tubo do órgão, acontece primeiramente o Efeito Bernoulli e, em seguida, o ar que quer sair do tubo através de uma fenda chamada lingueta se divide, indo parte para fora e parte para dentro do tubo, ocasionando desta forma o Vórtice de Kármán. Esse fenômeno foi observado pelo físico e engenheiro aeroespacial húngaro-americano Theodore Von Kármán (1881-1963), responsável por muitos avanços na área de aerodinâmica, ciência mais conhecida pelas suas aplicações na fabricação de aviões.

Apesar de existir todo um formalismo matemático para caracterizar os aspectos científicos observados na produção do som em um órgão de tubos, deve-se considerar que estamos falando na verdade de um instrumento musical cujo princípio de funcionamento é extremamente simples: ar que passa através de um tubo. A ciência envolvida também é básica. Talvez por tudo isso seja um instrumento fascinante, usado principalmente para acompanhar celebrações religiosas. Sua arquitetura é imponente. Sua posição no ambiente é de destaque. Sua presença inspira solenidade. Não há quem não deixe se envolver pelo seu som.

“Sou eu a pessoa mais próxima do órgão. Usamos o instrumento diariamente para atividades litúrgicas e religiosas, que é a razão de ser do órgão. Há uma série de concertos que são feitos na igreja aqui do mosteiro de mais ou menos 15 anos para cá. Agora, entre outras, são também feitas apresentações com organistas convidados”, prossegue Dom Paulo.

Um instrumento musical gigantesco e fabricado com muito capricho, com quase mil tubos de diversos tamanhos e tantas peças delicadas, tanto metal, madeira e reentrâncias enlevam um cuidado especial. Quase inevitável é tentar saber o mais simples: como se limpa o pó acumulado pelo dia a dia? A resposta de Dom Paulo, já pronta, pois ele também fizera a mesma pergunta para os construtores, preocupado em como usar um espanador ou aspirador de pó no instrumento. “Esta é uma pergunta interessante”, diz o religioso, ansioso por reproduzir a poética resposta da esposa do Georg. “Tira-se o pó do console onde estão os teclados e algumas partes mais próximas. De resto, a senhora Jann, esposa do Georg, nos deu a seguinte resposta para a mesma pergunta: ‘Dom Paulo, deve-se deixar para a pátina do tempo’”.

Este texto teve a edição do jornalista Rômulo Augusto Orlandini, através de quem tomei conhecimento do Jornalismo Literário. Nov/2011.